O mantra invertido de uma noite sem receios

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Na sexta-feira passada, além do calor que judiava o tecido adiposo, a noite goianiense estava boa pra quem estava na má (ou boa) intenção de divertir pelo direito de lutar ou lutar pelo direito de divertir. Com o horário de verão ainda fresco e confundido o relógio biológico, a hora e a vez depois do cumprimento do semi-aberto de 8 horas diárias que chamam pelo nome de trabalho era o famigerado chorinho, evento aberto no ponto central da cidade, mais especificamente no Grande Hotel, com apresentações de grupos locais que tocam samba, mpb e choro. Além da valorização e ocupação dos espaços públicos, o projeto proporciona um bom encontro de amizades, corpos e sentimentos. Gosto de ir pra tomar umas latas adquiridas do isopor do Natal e ficar fitando (olhando) pessoas, trocando umas ideias e arrumando um rolê posterior. Naquele específico dia a intenção era retornar ao ambiente de shows undergrounds daqui de Goiânia, já que eu estava distante por um bom período, pois outras prioridades torna-se necessário de vez em quando.

Bom, terminado o pré-rolê no “chorim” passei no Xodog pra comer um podrão presença (x-bacon) e depois parti com algumas amizades para o Complexo, lugar situado bem no centrão que funciona como estúdio, casa de shows e festas. Já tinha ido algumas vezes no local e realizei alguns eventos memoráveis ali (Renegades of Punk, Futuro e Ornitorrincos), portanto já estava familiarizado com o ambiente e o que restava era aproveitar aquela bela noite/madruga quente. O que mais me atraiu pra chegar chegando foi a apresentação programada do Frieza,  banda recente de metal que anda fazendo um barulho nesse nosso subterrâneo sonoro. Chegando ao local e adentrando ao mesmo pude notar algumas mudanças substanciais na estrutura do espaço. Antes o esquema funcionava em ambiente fechado e agora, pra minha grata surpresa, tinha um ambiente aberto muito style, tipo uma laje que lembra muito a Fatiado Discos.

Com um preço um pouco salgado da cerveja, logo descobri uma lata de IPA que refinou o paladar e pude seguir o baile sem reclamações. Entre conversas e boas risadas fui sacar o som do Mugo, banda de abertura que tira um metalcore muito bem feito. Confesso que não sou muito chegado na sonoridade e o pouco que vi deu pra sacar que a banda não alivia no peso e que as pessoas presentes estavam gostando muito do que viam. Voltei pro lado externo e notei algumas pessoas fantasiadas, outras com o rostos pintados no estilo corpse paint e depois de assuntar descobri que aquilo tratava-se de uma espécie de concurso/sorteio de melhor visual da noite. Gostei da make do Chita (vocal e guitarra do Frieza), que já estava derretendo e viajei um pouco no King Diamond sofrendo aqui no cerrado com os seus incrementos visuais que muito admiro.

Depois de uma demorinha que tolerei na base da bebida e das boas conversas, era a vez do Frieza começar o ritual e corri logo pra dentro da salinha/forno. O começo da apresentação estava um pouco morna e rolou uma certa dúvida se eu iria gostar do que viria a seguir. Bom, depois de uma longa intro arrastada, o mantra invertido foi tomando corpo e na medida que os acordes iam se intensificando, a hipnose sonora invadiu o meu inconsciente e transformou tudo num grande envolvimento espiritual entre música e pessoa. Explorando o metal instrumental, com boas pinceladas de doom, stoner, death metal, black metal e choques de crust, Chita, Marco Tulio e Julio casaram bem as suas referências e experiências com outras bandas num projeto que fiquei maravilhado e bastante impressionado com a intensidade da coisa. Talvez eu tenha visto isso com o Dom Casamata, Bang Bang Babies, Boogarins e com o Demosonic. Naquela noite tive esse privilégio de ver amigos fazendo algo verdadeiro e respeitando o som, um transe musical que recomendo pra quem estiver inserido nesse meio e pra quem estiver fora da bolha. Extasiado com o que tinha visto, sai da salinha fui tomar um ar, socializar mais um pouco, beber a derradeira cerveja e partir de voltar pro meu querido lar.

A real depois de tudo isso é que espero não demorar pra ver mais eventos de qualidade assim na cidade, pois apesar da escassez dos espaços para o rock sem fama e sem edital, as coisas andam acontecendo com a velocidade que é permitida. Ah… e vale finalizar dizendo que o Frieza é a melhor banda da atualidade nessa dita cena e se não concordar, experimente ver uma apresentação desse poderoso trio. Até mais.

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Dicas afiadas da semana #01

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Meio por fora e meio por dentro do que anda rolando de bom nesse meio quase esquecido e bastante fértil que está na periferia da periferia do mainstream, decidi toda quinta-feira soltar umas dicas boas pra quem gosta de bons sons, filmes, lugares e afins. É uma referência nítida ao fanzine, mídia que sempre pude encontrar boas novidades nas páginas finais destes escritos.

 

a1796952691_16Começo esta simples seção com uma banda daqui de Goiânia conhecida como Lutre. A banda é composta por uma trinca de bons jovens que não hesitam em explorar da melhor forma o melancólico rock experimental de letras cortantes. Com um baita disco de estreia que recebe o nome de “Apego”, as seis faixas que estão no registro é uma boa mistura de indie, post rock, experimental, lo-fi e coisas mais. Gosto muito da banda e indico pra quem se liga em Sonic Youth, Againe, BadBadNotGood, EATNMPTD e coisas mais.

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Descendo um pouco o degrau do pessimismo, apresento o Frieza, metal feito por pessoas conhecidas de outros natais da cena goianiense. O amargo intimo causado por qualquer conflito interno é expressado em cada acorde, compasso e percussão. Entre o doom e o metal experimental existem infinitas possibilidades sonoras que permeiam as oito músicas do primeiro disco deste cabuloso trio. Conheça e ouça.

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 Por um bom tempo que eu não lia zines, muito pela falta de interesse que as vezes bate na porta e eu deixo entrar. Mas no mês passado foi lançado um belíssimo projeto chamado Häxan, que é um fanzine feito por mulheres de Goiânia e Brasília. No conteúdo você encontra textos que abordam a falta de espaço para as mulheres dentro do cinema e música, discas de sons, filmes e livros, poesia, entrevista com banda e coisas mais. Bem diagramado, bem conduzido e material bastante relevante para as as discussões sobre acesso, patriarcado, desigualdade de gênero e afins. Interessou? entre em contato através do email: haxanzine@gmail.com

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Era o Hotel Cambridge foi um filme que assisti semanas atrás no Canal Brasil e achei bastante interessante a forma de abordagem do tema. Num esquema drama/documentário, o filme mostra a relação entre trabalhadores sem teto com refugiados num prédio abandonado no centro de São Paulo. O enredo gira em torno da ameaça de despejo, dramas pessoais, preconceito e falta de sensibilidade do poder público. Várias visões de uma angústia compartilhada.

 

  a1538155597_10Mais um som com a pegada experimental, apresento aqui a Kalouv, banda de Recife que conheci tem pouco tempo por conta do disco Elã. Entre sintetizadores, riffs curtos, post rock e lo-fi, o registro traz uma certa calmaria em meio ao caos, ou o contrário se assim for. Nove músicas que exploram bem o sub-universo da psicodelia, do progressivo e das infinitas experimentações sonoras. Favorito por aqui, espero que seja por aí também.

 

 

Sudamerica Existe – Volume 1 (2017)

 

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Entre idas e vindas nesse subcutâneo mundinho das redes sociables, passeando pela timeline da rede do Mark (se ligou na intimidade in-desejada?), pude deparar com um post do Villaverde (Ornitorrincos). O compartilhamento em questão tratava-se de uma compilação sul-americana encabeçada por Nathalia, responsável pela percussão desritmada da incrível Rakta. Colocada à disposição no bandcamp, o esqueminha é o resultado de uma bela pesquisa sobre bandas punks e afins ao redor da nossa América que tenham participação feminina nos respectivos grupos. Desse bolo todo eu só tinha conhecimento da 3D por conta de umas demos ouvidas através por conta de blog, youtube e mais recentemente por causa de um lançamento da Nada Nada Discos.

Depois disso o que eu ouvi foi a mais pura novidade desse submundo punk, sonoridades impressionantes que me fizeram rascunhar sobre a coletânea nesse espaço. Uma boa coerência e mescla de punk rock, post punk, garage punk e proto punk. Talvez a sua audição identifique mais estilos correlacionados, e isso claro que é válido, já que nenhum som é fechado à interpretações. Eu que sou um amante de coletâneas, splits e coisas mais, achei essa genial e espero que apareça mais números e que a ideia propague da melhor forma. É isso.

 

SLSD – Olhos Abertos, Bocas Fechadas (2017)

a2062528303_10Seguindo no sentido anti-horário dos labirintos do independente/underground, cheguei no selo Umbaduba Records por conta de amizades sulistas adquiridas através da rede social facebook. Através do Umbaduba conheci a banda SLSD (abreviação para Sem Lenço Sem Documento) e conheci o incrível álbum de estreia “Olhos Abertos, Bocas Fechadas”Composto por seis músicas, o disco é uma excelente mescla de pós punk, indie e experimentos melancólicos, resultado sonoro que muito me agradou desde os primeiros segundos de “Cara Amarrada”. Seguindo adiante com a audição, meu hd busca semelhanças com bandas nacionais do naipe de The Alchemists, Parte Cinza, Boogarins e The Completers, sons que ouço no cotidiano e que achei nuances de influência nos acordes e letras.

Simples e bem encorpado, o registro tem seus bons destaques (gosto pessoal, claro.), no caso das músicas “Lugar Nenhum”, “Não é Tristeza” e “Horário Merediano”, mas cito que o contexto geral me surpreendeu, já que entre tantos cliques tive a sorte de cair nessa boa banda oriunda de Mafra (SC) e que facilmente tocaria nos festivais daqui de Goiânia. Aqui está mais uma banda massa desse nosso submundo sonoro. Gostei.

Sábado bom de prosa e vitrola

 

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Sábado passado estava programado pra acontecer mais uma edição do Prosa Sonora, festivalzinho que visa fazer a conexão da cultura popular local com a cultura popular deste país, mais especificamente a nortista e nordestina. Acontecendo desde 2015, só agora que tomei vergonha na cara e prestigiei uma das edições, que ocorreu no espaço interno e externo do teatro Sesi Ferreira Pacheco.

Com algumas opções acontecendo na cidade, entre elas o Festival Vaca Amarela, optei pelo Prosa por conta da interessante programação daquela noite, que contava com a apresentação do grupo / coletivo goianense Encontro Violado, Maciel Salú (PE) e o projeto Forró de Vitrola (DF). Aliado à essas atrações, estava a atrativa condição do evento ser gratuito, o que colaborava no gasto de deslocamento com o Uber / 99 Pop e o fato (já dito antes) do meu prestígio inicial com o festival.

Com a chegada um pouco atrasada de minha parte, consegui pegar o final da apresentação do Encontro Violado, composto por músicos que fazem parte de grupos locais do naipe de Cega Machado, Umbando e Erotori. O pouco que vi foi de intenso agrado e maravilhosa surpresa, pois o grupo / coletivo apresenta músicas autorais carregadas da influência da cultura sertaneja / calunga goiana.

Acabada a maravilhosa apresentação do Encontro Violado, desci pra conhecer a estrutura montada do espaço externo, e logo adentrei novamente ao teatro e acomodei numa confortável cadeira. Passado alguns minutos, era a vez de Maciel Salú apresentar juntamente com a sua rabeca e banda músicas do seu mais recente disco, o “Baile de Rabeca”. Conheci Maciel através da Orquestra Contemporânea de Olinda (se não conhece, procure saber) e sabia de sua forte ligação com a cultura pernambucana, portanto a expectativa para uma bonita e emocionante apresentação era enorme. E o cabra não decepcionou, entre um forró bem ritmado e uma ciranda contagiante, o teatro esquentou o que era climatizado pelo ar condicionado, fazendo o suor descer no canto da nuca e gastar as articulações dos ossos. Pouco mais de uma hora depois cheguei a triste conclusão que a idade pesa e que eu estava debilitado fisicamente, mas pronto pra aguentar o que estava por vir no sereno da parte de fora do ambiente. Salú e banda souberam conduzir o ritmado e eis que pude ver um dos melhores shows desse ano. Quem não foi rodou.

Agora o forró era na parte de fora, comandada pelo Forró de Vitrola, discotecagem em vinil da fina flor do forró, tudo feito dentro de uma kombi-style 1973. Cacai Nunes é o nome do cabra que comanda as pickups e várias vezes emocionei ao lembrar de minha infância através das músicas ali tocadas. Sou filho e neto de pernambucanas oriundas de Exu (PE), então cresci ouvindo Trio Nordestino, Marinês, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Pinduca, Teixeirinha e coisas mais, e naquela noite tive o privilégio de ouvir alguns sons desse meu recorte de memória. Gostei do clima, da discotecagem, dos papos, da cerveja e só me decepcionei com o atendimento confuso do pessoal do pastel. Fora isso, um evento impecável na organização e com atrações de peso, feito com responsabilidade, amor e respeito à cultura e ao público. Voltei pra casa bastante satisfeito. Até breve.

 

 

Wi Fi Kills – Wafer Sounds – EP (2016)

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Tentando garimpar sonoridades que dificilmente aparecem nos blogs e sites que costumo acompanhar, cheguei através da Mandinga Records no conjunto curitibano conhecido como Wi Fi Kills. Vasculhei página de facebook, bandcamp e mais infos (que são bem escassas) atrás de mais detalhes sobre este grupo que faz sem muitas pretensões um garage rock misturado com new wave, proto punk e futurismo dos anos 50. Não encontrando o que eu pretendia, parti para a audição do EP “Wafer Sounds”, lançado em novembro do ano passado e que só fui ouvir neste mês. Com a sensação de estar ouvindo o disco com interferências da eletrônica rústica (botões, ignição, ondas de rádio) de uma sala de controle espacial, as cinco músicas que encorpam o registro é uma das boas maravilhas desse nosso submundo sonoro. Sintetizadores, riffs dançantes e reverbs intencionais deixam a coisa toda ainda mais interessante aos ouvidos.

Gostei muito do que escutei, da proposta simples e direta do conjunto e tenho a plena certeza de que os melhores sons ainda são os que estão escondidos em algum esgoto deste país. A Wi Fi Kills prova isso de maneira eficaz e nostálgica, sem soar repetitivo e deitando o cabelo nessa onda do ostracismo musical que perambula nesse meio underground que estou inserido.

obs.: no derradeiro feriado que passou, aquele do sete de setembro, estava programado a minha ida ao show destes bons, já que os mesmos apresentariam ao lado da paulista Thee Dirty Rats, que vieram para promover o lançamento do vinil sete polegadas que coloca as duas bandas no mesmo registro. surgiu uma viagem familiar de última hora, perdi a festa e depois ouvi da boca de presentes que este fora uma das melhores apresentações ja acontecida nesta cidade. fiquei desapontado. espero ter outra oportunidade de pagar essa dívida.

 

 

 

Facada – Nenhum Puto de Atitude (2017)

a3850270872_16Sentindo a falta de resenhas de coisas que gosto, resolvi criar o “Punk Fakinha”, um blog livre pra falar de discos, fitas, filmes, shows, lugares e tudo que tiver um pézinho no dito underground, sem agrados e sem afagos.

E pra dar início a essa nova saga, dedico algumas linhas para o disco de versões da cearense Facada. O grindcore soa pra mim como um loop eterno do enfrentamento de um cotidiano frustrante, pesado e angustiante em linhas sonoras agressivas, aceleradas e nada agradáveis. Falo isso por conta da banda explorar essa vertente, e nesse disco específico, apresenta versões de bandas que julgo que foram influências na construção da trajetória. Para você que é mais tradicional e não gosta de covers, nem adianta insistir, vaza daqui que a certeza de se frustrar é grande. Mas eu não preocupo com quem não gosta, só alerto pra não perder tempo e depois ficar com dor de cotovelo pelo cantos virtuais.

A extremidade aqui tem vez e pode ser visto em músicas como “Tourette’s” do Nirvana e “Deathtrash” do Sarcófago, grunge e black metal lado a lado e feito de forma primorosa, com muito respeito e reverência. Ao todo são dezessete rasgos no bucho, passando por Titãs, Bad Brains, ROT, Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, Hüsker Dü, Misfits e mais outras preciosidades do rock. Gosto muito do Facada, nunca vi uma apresentação dessa fina flor do acorde curto, e não sei por qual motivo sempre tive uma sensação de ser amigo/vizinho de Carlos James, pois sempre que coloco o “O Joio” e “Nadir” pra rodar no som o mantra da amizade distante surge no inconsciente e o desejo de levar um papo pessoal com esta quase entidade maligna do underground nacional retoma.

Pode parecer rasgação de seda, mas de sonoridade extrema eu só ando dando espaço pra esses peixeras, e os doidos ainda deitam o cabelo, lançam o “Feijoada Acidente” desses tempos deixando os nostálgicos arrepiados e a molecada instigada em conhecer outras vertentes. Nota máxima pra esse lançamento, arquitetado pela Laja Records e Everyday Hate. Acho que deve ter vinil e cd pra vender no site da Laja, vou atrás do meu assim que possível. Até breve.